domingo, 29 de junho de 2014

Por que é tão difícil existir sororidade?


     Sororidade é um termo feminista que significa, de acordo com definição do dicionário informal:
"Pacto entre as mulheres que são reconhecidas irmãs, sendo uma dimensão ética, política e prática do feminismo contemporâneo."


E, ao mesmo tempo, era e continua sendo raridade.


     Isso porque as mulheres são criadas para competirem. Não por bons salários, vagas nas universidades ou cargos em empresas, mas para serem as mais bonitas, mais "corretas", mais bem aceitas pela sociedade - e, principalmente, pelos homens. Quando alguma moça tem seu comportamento questionado, é muitas vezes mais fácil ouvir de outras mulheres "sim, é uma puta" do que "não acho que ela mereça ser julgada pela roupa que está usando". E acredite: não é culpa delas.

     Não é porque ninguém escolhe nascer em uma sociedade contaminada por essa visão. Somos condicionadas desde pequenas a sermos modelos de uma mulher ideal, a mulher "para casar" - e se a fulana é supostamente mais ideal que você, porque os garotos a acham mais bonita, não te estimulam a perceber que ambas têm sua beleza, essência e tipo físico. Não. Você recebe como resposta um guia de uma revista feminina de como chegar ao padrão cultuado socialmente, como se ao invés de perceber que TANTO você QUANTO a fulana, mesmo diferentes, são bonitas, você precisasse obrigatoriamente "superá-la" - entre aspas mesmo, porque não existe superação a partir do momento que consideramos a individualidade, que cada um deve aceitar seu próprio corpo, beleza, seu modo de ser. 

     Então,  nasce a história que a mulher é invejosa, que não existe amizade entre mulheres, mulher é tudo cobra, bom é só ter amigo homem. É bom ter amigo homem sim. Mas não existe nada melhor que se libertar de tanta imposição e perceber que você também pode ter amigas mulheres. Pode ser solidária, pode dar sua cara a tapa para defender aquela moça que é crucificada por ter tirado a roupa em uma festa, mesmo que não a conheça. Porque o machismo que te faz chamar a sua colega de puta é o mesmo que te escraviza para deixar de lado as suas vontades, sua liberdade, e te fazer escrava do molde de "mulher ideal". 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Quando a vida não é igual a comercial de margarina.


A gente cresce ouvindo de todos que, a menos que você esteja na UTI ou passando fome, não existem motivos para reclamar e nem para ser infeliz. 

Olha, isso é meio verdade. Essa história de nascer de novo depois de quase morrer num acidente, por exemplo, e depois disso começar a agradecer e agradecer realmente acontece. O problema é justamente PRECISAR que a desgraça venha para começar a agradecer.

O ser humano não é 8 ou 80, não basta pra ele não estar na UTI e ter miojo no armário pra ser feliz. No mínimo, ele queria que o miojo fosse sabor galinha e não feijão. É um poço de insatisfação, de crítica e descontentamento, que ouve a Lana Del Rey cantando "(...) and my life is sweet like vanilla is" e pensa "poxa, a minha vida não é doce igual baunilha não, se a Lana depressivona com essas músicas tem vida de baunilha, para mim a situação deve estar feia, porque a minha tem gosto de miojo feijão".

Porque ser humano nasceu pra tudo, menos pra racionalizar vontades. Para perceber que, mesmo querendo mais, não precisa ver as coisas como menos. Como diz a Vee de OITNB, carpe diem funcionava muito bem na época em que a expectativa de vida das pessoas era só 40 anos. Agora, dá tempo de esperar, de planejar, de ter calma, não precisa enfiar um #100HappyDays e ter que pedir pizza de chocolate com morango pra conseguir ficar feliz.

Felicidade é aprender a esperar. É ter a confiança que agora as coisas podem não dar certo, mas no futuro vão, porque você está trilhando um caminho pra isso. É questão de segurar a ansiedade, ao invés de reclamar por não ter de imediato.

Não significa que não pode querer aproveitar nada, que tem que esperar até tudo ser flores. Eu também queria fazer um #100HappyDays, queria chamar a galera pra comer pizza de pepperoni, tomar cerveja, assistir family guy TODO SANTO DIA (com eles lavando a louça, porque se eu tivesse que limpar não seria happy day). O que eu quero dizer é: a gente consegue, sim, fazer 100 dias felizes sem querer. Não precisa toda hora ter comida boa e bagunça. A felicidade pode estar nas coisas pequenas, pode ser acordar de manhã e ajudar sua mãe com a casa vestindo pijama, pode ser observar uma flor, pode ser tirar um minutinho pra ver a lua lá fora.

E, como ouvi uma vez em uma palestra do ministro Luiz Roberto Barroso, as coisas não caem do céu. Ou, no fim, caem. E se caírem mesmo, agradeça.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

"E por que as feministas, já que querem tanto direitos iguais, não lutam a favor do alistamento militar obrigatório feminino?"




Porque o feminismo não é a favor nem do alistamento militar obrigatório masculino.

Antes de tudo, feminismo se baseia em liberdade de escolha. Logo, seria extremamente aberrante um movimento fundado com o objetivo de se opor à OPRESSÃO lutar por qualquer tipo de imposição.

Nunca levantamos bandeira pra defender o alistamento obrigatório de homens, da mesma maneira que não cabe ao feminismo lutar pelo fim dele - pela mesma lógica que não é obrigação do movimento negro protestar contra reivindicações do movimento sem terra ou liderar ações contra homofobia. É necessário o respeito e cooperação entre diferentes movimentos sociais e institutos, mas deve-se lembrar que o OBJETO de luta deve ser liderado e guiado por aquele que é na prática alvo da discriminação em questão. De início pode parecer separatismo e algo individualista, mas na prática proporciona uma cooperação mútua e a possibilidade de se ouvir todas as minorias.

Homens e feminismo não são opostos, mas não há motivo para um movimento social-ideológico invadir uma questão que não diz respeito a ele. Feminismo é a busca pela igualdade social entre gêneros, sempre levando em conta um em relação ao outro. Se não há interligação DIRETA entre a vontade das mulheres e a imposição do serviço militar aos homens, não existe motivo para invadir o que simplesmente não se enquadra dentro da ideologia.

A imposição militar aos homens não foi uma iniciativa feminista, não foi algo proposto por mulheres, pelo contrário, a origem pode ser considerada inclusive machista, por acreditar que mulheres no exército seriam hipossuficientes - e o caminho para quebrar esse machismo justamente pela questão principiológica não pode ser igualar a imposição.

A prostituição e o feminismo: que posicionamento tomamos?




O feminismo possui um posicionamento claro quanto a liberdade sexual feminina, assim como a liberdade também de escolha e o direito de ser respeitada independentemente de suas atitudes relacionadas ao seu corpo, sexualidade, vestimentas e pudor. As prostitutas são, provavelmente, nossos maiores exemplos – e as maiores vítimas – da caça às bruxas que o machismo impôs historicamente em oposição àquelas mulheres que não se mantinham “puras” aos olhos da sociedade, sendo vistas como profanas, sujas, imorais.

No entanto, é importante lembrar que a prostituição historicamente nunca foi símbolo de resistência feminina à sociedade moralista da época. O argumento para isso é curto e grosso: não havia nenhum tipo de reflexão acerca da liberdade sexual durante o surgimento da prostituição, a “profissão mais antiga do mundo”, assim como grande parte das mulheres nem possuíam direito à educação por muitos séculos - séculos esses em que o comércio do sexo já era presente. É, em verdade, uma criação machista repudiada também pelo machismo. “A mão que afaga é a mesma que bate” – quando a mulher estava geralmente em necessidade financeira, o homem, que já tinha uma visão de mercadoria sobre as mulheres, comprava a única coisa que ela poderia oferecer. Em contrapartida, a partir do momento em que uma mulher acatasse em ceder favores sexuais, o mesmo comprador dos tais favores não a via mais como pura, moral, merecedora de dignidade.

Não é pela prostituição que o feminismo marcha. São pelas prostitutas.

Defenderemos o comércio de sexo feito por livre e espontânea vontade, por mulheres adultas, sem nenhum tipo de aliciamento, livre de coação ou violência – no entanto, esse tipo de prostituição é raríssimo. É justamente essa crítica que precisamos levar em conta: atingiu uma, atinge todas, somos todas prostitutas, somos todas livres, mas quem deve ser saudado nesse “somos todas prostitutas” são as MULHERES, não a prostituição pura e simples. Essa última muitas vezes escraviza, mata, machuca, sacia o agressor e ainda serve como desculpa, em uma visão completamente deturpada, para gerar mais opressão.

Não devemos restringir a análise da prostituição pelo feminismo SOMENTE com a visão de “é um direito da mulher decidir comercializar o corpo, e isso não a faz desmerecedora de respeito”. Ainda temos muito para analisar e lutar. A usina de Belo Monte, por exemplo, está levando as índias à prostituição, um fenômeno que historicamente era raríssimo nas comunidades indígenas – algo propulsionado obviamente pelo estado de necessidade, e não por uma reflexão acerca de que são donas de seus corpos e merecedoras de respeito. Infelizmente, a maioria nunca terá acesso a esse tipo de informação.

Quanto mais amplo for o nosso olhar, mais amplo será o número de vítimas que poderemos proteger.

Esperando o milagre da autoaceitação.



Provavelmente, a maior mentira que contamos na nossa vida todinha é de que somos livres, que não nos importamos com a opinião alheia, que se nós mesmos gostamos, está tudo bem. Nunca é 100% assim. É incrivelmente fácil não levar a sério um comentário de alguém dizendo que não gosta das suas roupas se você não gosta das dela também, por exemplo. Não gosta de xadrez? ok, sua estampa de oncinha é terrível na minha visão também. O problema é que uma hora ou outra você vai se pegar fazendo alguma coisa pra agradar alguém. Você sabe que deixar pelo crescer não é falta de higiene, se você se limpa e usa desodorante, mas você tira os pelos. Você toca o foda-se por ter barriguinha, mas seu(a) parceiro(a) fala que você tem que emagrecer, e você vai nessa. Seu amigo fala que as pessoas em geral te acham frio(a), e você começa a tentar ser mais simpático. No fim, a autoaceitação, o momento em que você pensa "FINALMENTE, TÔ ME AMANDO!" é quando os outros começam a te amar primeiro.



Porque ninguém quer ficar sozinho. E por isso a gente cede.

Mas se as pessoas soubessem lidar com diferenças, com a felicidade alheia, ninguém ficaria sozinho de forma alguma.


Temos uma necessidade enorme de estarmos em um meio social, só que para entrar nesse meio tem quase que prestar vestibular e preencher todos os requisitos. Isso é extremamente triste, é deprimente, e o pior de tudo é que podemos pensar sobre isso diversas vezes, mas no final estaremos tentando fazer uma média com os colegas de trabalho. E sempre, sempre, acaba enchendo o saco uma hora. Até porque parece que as exigências alheias nunca são suficientes.



Espero, um dia, conseguir olhar pra essas todas exigências e só responder cantando Novos  Baianos:



"Vou mostrando como sou


E vou sendo como posso,
Jogando meu corpo no mundo,
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas,
Passado, presente,
Participo sendo o mistério do planeta"