O feminismo possui um posicionamento claro quanto a liberdade sexual feminina, assim como a liberdade também de escolha e o direito de ser respeitada independentemente de suas atitudes relacionadas ao seu corpo, sexualidade, vestimentas e pudor. As prostitutas são, provavelmente, nossos maiores exemplos – e as maiores vítimas – da caça às bruxas que o machismo impôs historicamente em oposição àquelas mulheres que não se mantinham “puras” aos olhos da sociedade, sendo vistas como profanas, sujas, imorais.
No entanto, é importante lembrar que a prostituição historicamente nunca foi símbolo de resistência feminina à sociedade moralista da época. O argumento para isso é curto e grosso: não havia nenhum tipo de reflexão acerca da liberdade sexual durante o surgimento da prostituição, a “profissão mais antiga do mundo”, assim como grande parte das mulheres nem possuíam direito à educação por muitos séculos - séculos esses em que o comércio do sexo já era presente. É, em verdade, uma criação machista repudiada também pelo machismo. “A mão que afaga é a mesma que bate” – quando a mulher estava geralmente em necessidade financeira, o homem, que já tinha uma visão de mercadoria sobre as mulheres, comprava a única coisa que ela poderia oferecer. Em contrapartida, a partir do momento em que uma mulher acatasse em ceder favores sexuais, o mesmo comprador dos tais favores não a via mais como pura, moral, merecedora de dignidade.
Não é pela prostituição que o feminismo marcha. São pelas prostitutas.
Defenderemos o comércio de sexo feito por livre e espontânea vontade, por mulheres adultas, sem nenhum tipo de aliciamento, livre de coação ou violência – no entanto, esse tipo de prostituição é raríssimo. É justamente essa crítica que precisamos levar em conta: atingiu uma, atinge todas, somos todas prostitutas, somos todas livres, mas quem deve ser saudado nesse “somos todas prostitutas” são as MULHERES, não a prostituição pura e simples. Essa última muitas vezes escraviza, mata, machuca, sacia o agressor e ainda serve como desculpa, em uma visão completamente deturpada, para gerar mais opressão.
Não devemos restringir a análise da prostituição pelo feminismo SOMENTE com a visão de “é um direito da mulher decidir comercializar o corpo, e isso não a faz desmerecedora de respeito”. Ainda temos muito para analisar e lutar. A usina de Belo Monte, por exemplo, está levando as índias à prostituição, um fenômeno que historicamente era raríssimo nas comunidades indígenas – algo propulsionado obviamente pelo estado de necessidade, e não por uma reflexão acerca de que são donas de seus corpos e merecedoras de respeito. Infelizmente, a maioria nunca terá acesso a esse tipo de informação.
Quanto mais amplo for o nosso olhar, mais amplo será o número de vítimas que poderemos proteger.

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