domingo, 28 de setembro de 2014

Curtindo a nossa mentira.


Antes de até mesmo introduzir o assunto desse post, eu queria deixar claro que não será um texto culpabilizador. De maneira alguma. O que eu queria, mesmo, é que as pessoas, particularmente as mulheres, particularmente as que passaram pela experiência que eu vou contar, parassem para pensar até onde esse tipo de sentimento é real e vale a pena. E agora sim é hora de introduzir.

Há anos na internet me deparo com posts motivacionais de moças, com fotos comparativas de hoje, magras e malhadas, e de anos atrás, cheinha. E quase nenhuma menciona que mudou os hábitos pela saúde - no máximo, a saúde vem só como um adicional. O foco da mudança e da motivação é dizer que "hoje me sinto bem comigo mesma". Como se isso fosse realmente bom.

Você se sente melhor porque foi pressionada para entrar em um padrão, porque as pessoas agora te tratam melhor, porque as roupas da moda agora servem em você, porque só agora começaram a enxergar beleza em ti - talvez, até você mesma só conseguiu se sentir bonita agora. Porque sua autoestima agora está alta? não, porque colocaram na sua cabeça que ISSO é ser bonita. Porque a sua Barbie era magra, as modelos são magras, as capas de revistas femininas são magras. "E não pode ser uma preferência minha?" a partir do momento que nenhum de nós foi criado numa bolha sem imposição de padrões, onde teve a opção de avaliar magro e gordo como quem avalia azul e amarelo, não. Você só acha que tem. Mas em um mundo onde o considerado bonito não corresponde à média do biotipo das mulheres, dá para prever que tem no mínimo algo estranho nesse meio.

E a nossa válvula de escape é tentar meter na cabeça que você não, você escolheu ser magra exclusivamente pela saúde (mas mesmo magra continua bebendo álcool, refrigerante, fumando, comendo fritura...) e não por imposição. E achando ofensivo quando alguém diz o que estou falando. Olha, eu não sei se você sabe, mas eu também sou mulher, também fui socializada como mulher, pressionada do mesmo jeito que você foi e já dei as mesmas desculpas que você.

A época em que eu fui menos saudável foi coincidentemente a época que fui mais magra.  E eu não acho que eu seja uma exceção no mundo, que todo o resto das meninas que se tornaram magras têm uma alimentação incrível e balanceada. "Mas você sabe que tem gente magra por causa de genética e bons hábitos, né?" claro, e esse texto não é para essas pessoas. Está tudo ok com elas. Estou falando para gente como eu, que não tem a melhor das tendências, que se envolveu nas próprias mentiras sobre alimentação e que não queria abrir a cabeça para o que eu estou dizendo aqui.

E de novo: isso não é culpabilização. E nem mesmo acha que seja um pensamento libertador. Tomei consciência do que disse e o mundo continua a mesma merda de sempre. E aí? talvez eu nem queria saber dessas coisas, estava feliz curtindo a minha mentira. Mas deixei de curtir mentira para curtir rocambole de morango. E lá vou eu.


terça-feira, 22 de julho de 2014

Miss Andria




"Vocês estão erradas em dizer que eu, homem, não posso ser feminista, porque isso é segregação, porque nem todo homem é machista, porque vocês estão equivocadas, e eu só quero ajudar"


Sim, estamos vendo o quanto você quer ajudar. 
Sua boa intenção já começa querendo ignorar o fato de que a maioria de nós não quer que você esteja conosco. 

Você também está transbordando cooperação apontando o dedo para mulheres que sofreram traumas, e finalmente tiveram coragem de lutar, dizendo que elas estão erradas. Está sendo muito coerente citando autores para justificar isso, ignorando que feminismo não é puramente uma teoria, mas trata-se de emponderamento das mulheres, que tiveram a sua voz calada durante tantos anos - e você, super prestativo, quer calar ou interferir de novo. És um exemplo de feminista.

Sua prestatividade é emocionante, diz que pode sim se colocar no lugar de uma vítima de violência, mas quer ensiná-la a militar com o que você acha certo. Está engajado com o fim da opressão, mas ao invés de nos apoiar, você quer discordar. Quer comparar misoginia com misandria, mas não vê que enquanto a primeira vem institucionalizada, a segunda vem do nosso trauma.

Não, você não está bem intencionado. Subestima  nossa voz, nossa opressão e nossa luta tomando o foco para si, sentindo-se afetado por não poder tomar frente da nossa militância. Nós estamos juntas porque vocês nos excluíram por muito tempo, e não vão retirar nossa voz de novo. Você não pode ser feminista, porque te falta compreensão e solidariedade. Seu discurso não é só discordante, é desrespeitoso.

Homens são apoiadores e não protagonistas. Quem realmente tem boas intenções, quem realmente quer nos ajudar, nos ouve e nos apoia. Mas nunca quer roubar a nossa voz.


terça-feira, 15 de julho de 2014

Gramado!

Minha primeira postagem 100% pessoal daqui, porque no fim eu não aguentaria não escrever nada. Sabe quando você está de má vontade para viajar, só foi porque sua família insistiu, e no fim das contas não quer mais ir embora? Eu não sou a pessoa mais indicada para falar sobre viagens, porque não viajei nem 1% do que realmente queria, mas tenho certeza que essa também marcaria o meu coração.

Uma preview de como é a arquitetura da cidade TODINHA.



Gramado é uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, toda construída (quando digo toda, é TODA, até o ministério público e a brigada militar) nos estilos alemão, italiano e, em menor parte, português. Um guia me disse que algumas partes foram construídas no estilo suíço, mas não consegui identificar quais foram. 

Um dos restaurantes mais lindos que vi, no centro da cidade.

Ela possui apenas 35.000 habitantes, todos descendentes de famílias europeias - bom, isso praticamente todos nós brasileiros somos, mas ali existe preservação da cultura dos antepassados. Meus bisavós vieram da Itália, mas não vejo quase NADA de reflexo disso na minha vida, mas na das pessoas de lá existe. Ensinam os idiomas dos antepassados em casa, comem da mesma forma dos antepassados (a cultura italiana de tomar sopa antes do almoço, por exemplo, é MUITO FORTE), preservaram a arquitetura, os costumes, quase tudo. Sinceramente, não sei até onde isso é bom, até porque acredito que isso pode servir como auxílio para xenofobia, repúdio da cultura local e racismo, mas analisando puramente como turista, é no mínimo interessante.

Lembrancinhas holandesas compradas em Gramado, em uma lojinha de uma família alemã que mora no RS, e traz várias coisas lindas da Europa para revender.

As casas não têm muros, as ruas são extremamente limpas, nenhum lugar está precisando de asfalto. Eu fiquei chocada, tentando imaginar o quanto o prefeito de lá deve ser engajado com a cidade, até que o guia disse que não é só trabalho dele, mas que os empresários que moram na cidade também investem muito dinheiro nela, seja ajudando as escolas dali, seja asfaltando rua. Isso é muito interessante, e até necessário, já que 85% da população vive do turismo, e precisa que a cidade esteja impecável. Algumas fotos do centro da cidade, que infelizmente não achei sem a minha edição:





Para não dizer que a viagem foi perfeita, tivemos um grande susto: preços. Nós não fazíamos ideia de que Gramado era o segundo destino turístico mais caro do Brasil. Achávamos que os preços deveriam ser como em Porto Alegre e Curitiba, e olha: não mesmo! a média de preço de uma refeição >>individual<<, POR BAIXO, é R$50,00. Nós comíamos em restaurantes "normais", depois de pesquisarmos os menos caros, e ainda assim gastávamos mais de R$300,00 por dia em alimentação - estávamos em três. A casa de fondue mais recomendada cobrava R$90,00 por PESSOA. Casas muito menores que a minha custam lá DOIS MILHÕES DE REAIS, simplesmente por estarem em Gramado - aqui, deveriam valer no máximo R$500.000. O preço de um apartamento lá é de 1 milhão! Não existe pobreza, pedintes, mendigos, índios ou qualquer coisa semelhante, justamente porque um andarilho precisaria juntar uns R$25,00 para comprar um sanduíche e um suco naquela região. 

Eu quero engolir essa arquitetura!!!!


Por último, minhas recomendações para quem quer visitar a cidade são:
1) Só vá se você está tranquilo financeiramente. Se você já teve que economizar só para pagar hospedagem e passagens, não vai poder fazer quase nenhum passeio ou refeição. Lá, as coisas são MUITO CARAS!
2) Não precisa ficar uma semana lá. Se você tiver disposição pra andar das 9 da manhã até a hora de jantar, em quatro dias já conseguiu visitar a maior parte dos pontos, de Gramado até Canela (cidade vizinha e linda também).
3) Vale a pena pagar aqueles guias que vêm com carro para te levarem nos lugares. Eles te buscam de manhã e te entregam as 18 horas, custa em média R$200,00, e se você mandar o cara te levar na pqp, ele vai na pqp numa boa. É ótimo porque eles sabem os horários dos lugares, preço, disponibilidade, localização, TUDO, você não precisa quebrar a cabeça para ir em lugar algum.
4) Tenha em mente que a cidade é cara, e que o atrativo dela é justamente parecer uma cidadezinha europeia. Não vá lá achando que vai almoçar Outback e jantar Burger King, não existe shopping, a comida vendida lá é 95% italiana e alemã, e quase não tem fast food. Até onde me disseram, só existe UM Mc Donald's bem pequenininho. Quer comer sushi, mexicano, comida árabe, yakissoba, ir em festas, jogar boliche? vá para Porto Alegre, não para Gramado.

Por fim: já estou com saudade. :')


Fechando com uma foto minha e do brotha, em um dos únicos lugares com entrada grátis, o Le Jardin/Parque da Lavanda. Lindo, lindo.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

"Ah, mas tem que perdoar!"

Essa aí da imagem é você se desdobrando em 5 pra tentar perdoar alguém.


      Provavelmente, todo mundo que teve criação cristã se vê por toda vida perseguido por alguns costumes e "valores" que foram introduzidos na sua cabeça, desde quando você, talvez como eu, achava que a história do anjo da guarda estar sempre com você era uma tremenda de uma falta de privacidade. Tanto que eu não queria trocar de roupa, porque pensava que o anjo estava me olhando, e tinha vergonha. Mas anjos à parte, a cada dia comprovo mais que o foco da minha culpa cristã é esse aqui: o tal do perdão. Ah, tem que perdoar. Quem não perdoa é orgulhoso. Tudo se resolve com perdão. Pai e mãe é sagrado, não pode ter ressentimento deles não. Perdoe. Perdoe. Perdoe. Sinceramente? não.
    Muitas vezes passei por problemas sérios e literalmente corri para os braços da religião, inclusive de religiões diferentes, e sempre ouvi o mesmo: tem que perdoar!! Nunca o foco foi a minha tristeza, o meu trauma. Eu que estava errada, porque não perdoava. Então, eu ignorava toda a situação que estava passando e tentava simplesmente tratar o responsável pelo meu calo da melhor maneira possível.

E não. Isso não tem nada de perdão. 
Perdoar não pode ser exigido. Não pode ser só olhar pra cara de quem te fez tanto mal e dar um sorriso.
E por último: não, você não precisa perdoar ninguém não.

   Sabe, parece tão óbvio falar que só nós mesmos sabemos o fardo que carregamos, mas ao mesmo tempo não é isso que nos aconselham. Foi agredidx? está se sentindo mal? alguém fez você ficar traumatizado, triste, decepcionadx, isso te prejudica mesmo depois de ter acabado? o foco está em você. E fica ao seu critério, quando superar, perdoar ou não. E que fique bem claro que, mesmo superado, perdoar não é esquecer. 
   E tudo isso não é ruim não. Na igreja podem falar que é orgulho, que não vai te trazer nada de bom, que o maior prejudicado é você. E acredite: a partir do momento em que você afasta o que te faz mal, dá um tempo para digerir tudo, consegue cuidar de si mesmx ao invés de ficar "MAS EU PRECISO ESQUECER DESSA MÁGOA", está te dando a maior ajuda do mundo. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, cada um sabe o que sofre e já sofreu, o que precisa fazer, o tempo necessário, e, acima de tudo, quem é que vale a pena querer perto ou não. 

domingo, 29 de junho de 2014

Por que é tão difícil existir sororidade?


     Sororidade é um termo feminista que significa, de acordo com definição do dicionário informal:
"Pacto entre as mulheres que são reconhecidas irmãs, sendo uma dimensão ética, política e prática do feminismo contemporâneo."


E, ao mesmo tempo, era e continua sendo raridade.


     Isso porque as mulheres são criadas para competirem. Não por bons salários, vagas nas universidades ou cargos em empresas, mas para serem as mais bonitas, mais "corretas", mais bem aceitas pela sociedade - e, principalmente, pelos homens. Quando alguma moça tem seu comportamento questionado, é muitas vezes mais fácil ouvir de outras mulheres "sim, é uma puta" do que "não acho que ela mereça ser julgada pela roupa que está usando". E acredite: não é culpa delas.

     Não é porque ninguém escolhe nascer em uma sociedade contaminada por essa visão. Somos condicionadas desde pequenas a sermos modelos de uma mulher ideal, a mulher "para casar" - e se a fulana é supostamente mais ideal que você, porque os garotos a acham mais bonita, não te estimulam a perceber que ambas têm sua beleza, essência e tipo físico. Não. Você recebe como resposta um guia de uma revista feminina de como chegar ao padrão cultuado socialmente, como se ao invés de perceber que TANTO você QUANTO a fulana, mesmo diferentes, são bonitas, você precisasse obrigatoriamente "superá-la" - entre aspas mesmo, porque não existe superação a partir do momento que consideramos a individualidade, que cada um deve aceitar seu próprio corpo, beleza, seu modo de ser. 

     Então,  nasce a história que a mulher é invejosa, que não existe amizade entre mulheres, mulher é tudo cobra, bom é só ter amigo homem. É bom ter amigo homem sim. Mas não existe nada melhor que se libertar de tanta imposição e perceber que você também pode ter amigas mulheres. Pode ser solidária, pode dar sua cara a tapa para defender aquela moça que é crucificada por ter tirado a roupa em uma festa, mesmo que não a conheça. Porque o machismo que te faz chamar a sua colega de puta é o mesmo que te escraviza para deixar de lado as suas vontades, sua liberdade, e te fazer escrava do molde de "mulher ideal". 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Quando a vida não é igual a comercial de margarina.


A gente cresce ouvindo de todos que, a menos que você esteja na UTI ou passando fome, não existem motivos para reclamar e nem para ser infeliz. 

Olha, isso é meio verdade. Essa história de nascer de novo depois de quase morrer num acidente, por exemplo, e depois disso começar a agradecer e agradecer realmente acontece. O problema é justamente PRECISAR que a desgraça venha para começar a agradecer.

O ser humano não é 8 ou 80, não basta pra ele não estar na UTI e ter miojo no armário pra ser feliz. No mínimo, ele queria que o miojo fosse sabor galinha e não feijão. É um poço de insatisfação, de crítica e descontentamento, que ouve a Lana Del Rey cantando "(...) and my life is sweet like vanilla is" e pensa "poxa, a minha vida não é doce igual baunilha não, se a Lana depressivona com essas músicas tem vida de baunilha, para mim a situação deve estar feia, porque a minha tem gosto de miojo feijão".

Porque ser humano nasceu pra tudo, menos pra racionalizar vontades. Para perceber que, mesmo querendo mais, não precisa ver as coisas como menos. Como diz a Vee de OITNB, carpe diem funcionava muito bem na época em que a expectativa de vida das pessoas era só 40 anos. Agora, dá tempo de esperar, de planejar, de ter calma, não precisa enfiar um #100HappyDays e ter que pedir pizza de chocolate com morango pra conseguir ficar feliz.

Felicidade é aprender a esperar. É ter a confiança que agora as coisas podem não dar certo, mas no futuro vão, porque você está trilhando um caminho pra isso. É questão de segurar a ansiedade, ao invés de reclamar por não ter de imediato.

Não significa que não pode querer aproveitar nada, que tem que esperar até tudo ser flores. Eu também queria fazer um #100HappyDays, queria chamar a galera pra comer pizza de pepperoni, tomar cerveja, assistir family guy TODO SANTO DIA (com eles lavando a louça, porque se eu tivesse que limpar não seria happy day). O que eu quero dizer é: a gente consegue, sim, fazer 100 dias felizes sem querer. Não precisa toda hora ter comida boa e bagunça. A felicidade pode estar nas coisas pequenas, pode ser acordar de manhã e ajudar sua mãe com a casa vestindo pijama, pode ser observar uma flor, pode ser tirar um minutinho pra ver a lua lá fora.

E, como ouvi uma vez em uma palestra do ministro Luiz Roberto Barroso, as coisas não caem do céu. Ou, no fim, caem. E se caírem mesmo, agradeça.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

"E por que as feministas, já que querem tanto direitos iguais, não lutam a favor do alistamento militar obrigatório feminino?"




Porque o feminismo não é a favor nem do alistamento militar obrigatório masculino.

Antes de tudo, feminismo se baseia em liberdade de escolha. Logo, seria extremamente aberrante um movimento fundado com o objetivo de se opor à OPRESSÃO lutar por qualquer tipo de imposição.

Nunca levantamos bandeira pra defender o alistamento obrigatório de homens, da mesma maneira que não cabe ao feminismo lutar pelo fim dele - pela mesma lógica que não é obrigação do movimento negro protestar contra reivindicações do movimento sem terra ou liderar ações contra homofobia. É necessário o respeito e cooperação entre diferentes movimentos sociais e institutos, mas deve-se lembrar que o OBJETO de luta deve ser liderado e guiado por aquele que é na prática alvo da discriminação em questão. De início pode parecer separatismo e algo individualista, mas na prática proporciona uma cooperação mútua e a possibilidade de se ouvir todas as minorias.

Homens e feminismo não são opostos, mas não há motivo para um movimento social-ideológico invadir uma questão que não diz respeito a ele. Feminismo é a busca pela igualdade social entre gêneros, sempre levando em conta um em relação ao outro. Se não há interligação DIRETA entre a vontade das mulheres e a imposição do serviço militar aos homens, não existe motivo para invadir o que simplesmente não se enquadra dentro da ideologia.

A imposição militar aos homens não foi uma iniciativa feminista, não foi algo proposto por mulheres, pelo contrário, a origem pode ser considerada inclusive machista, por acreditar que mulheres no exército seriam hipossuficientes - e o caminho para quebrar esse machismo justamente pela questão principiológica não pode ser igualar a imposição.

A prostituição e o feminismo: que posicionamento tomamos?




O feminismo possui um posicionamento claro quanto a liberdade sexual feminina, assim como a liberdade também de escolha e o direito de ser respeitada independentemente de suas atitudes relacionadas ao seu corpo, sexualidade, vestimentas e pudor. As prostitutas são, provavelmente, nossos maiores exemplos – e as maiores vítimas – da caça às bruxas que o machismo impôs historicamente em oposição àquelas mulheres que não se mantinham “puras” aos olhos da sociedade, sendo vistas como profanas, sujas, imorais.

No entanto, é importante lembrar que a prostituição historicamente nunca foi símbolo de resistência feminina à sociedade moralista da época. O argumento para isso é curto e grosso: não havia nenhum tipo de reflexão acerca da liberdade sexual durante o surgimento da prostituição, a “profissão mais antiga do mundo”, assim como grande parte das mulheres nem possuíam direito à educação por muitos séculos - séculos esses em que o comércio do sexo já era presente. É, em verdade, uma criação machista repudiada também pelo machismo. “A mão que afaga é a mesma que bate” – quando a mulher estava geralmente em necessidade financeira, o homem, que já tinha uma visão de mercadoria sobre as mulheres, comprava a única coisa que ela poderia oferecer. Em contrapartida, a partir do momento em que uma mulher acatasse em ceder favores sexuais, o mesmo comprador dos tais favores não a via mais como pura, moral, merecedora de dignidade.

Não é pela prostituição que o feminismo marcha. São pelas prostitutas.

Defenderemos o comércio de sexo feito por livre e espontânea vontade, por mulheres adultas, sem nenhum tipo de aliciamento, livre de coação ou violência – no entanto, esse tipo de prostituição é raríssimo. É justamente essa crítica que precisamos levar em conta: atingiu uma, atinge todas, somos todas prostitutas, somos todas livres, mas quem deve ser saudado nesse “somos todas prostitutas” são as MULHERES, não a prostituição pura e simples. Essa última muitas vezes escraviza, mata, machuca, sacia o agressor e ainda serve como desculpa, em uma visão completamente deturpada, para gerar mais opressão.

Não devemos restringir a análise da prostituição pelo feminismo SOMENTE com a visão de “é um direito da mulher decidir comercializar o corpo, e isso não a faz desmerecedora de respeito”. Ainda temos muito para analisar e lutar. A usina de Belo Monte, por exemplo, está levando as índias à prostituição, um fenômeno que historicamente era raríssimo nas comunidades indígenas – algo propulsionado obviamente pelo estado de necessidade, e não por uma reflexão acerca de que são donas de seus corpos e merecedoras de respeito. Infelizmente, a maioria nunca terá acesso a esse tipo de informação.

Quanto mais amplo for o nosso olhar, mais amplo será o número de vítimas que poderemos proteger.

Esperando o milagre da autoaceitação.



Provavelmente, a maior mentira que contamos na nossa vida todinha é de que somos livres, que não nos importamos com a opinião alheia, que se nós mesmos gostamos, está tudo bem. Nunca é 100% assim. É incrivelmente fácil não levar a sério um comentário de alguém dizendo que não gosta das suas roupas se você não gosta das dela também, por exemplo. Não gosta de xadrez? ok, sua estampa de oncinha é terrível na minha visão também. O problema é que uma hora ou outra você vai se pegar fazendo alguma coisa pra agradar alguém. Você sabe que deixar pelo crescer não é falta de higiene, se você se limpa e usa desodorante, mas você tira os pelos. Você toca o foda-se por ter barriguinha, mas seu(a) parceiro(a) fala que você tem que emagrecer, e você vai nessa. Seu amigo fala que as pessoas em geral te acham frio(a), e você começa a tentar ser mais simpático. No fim, a autoaceitação, o momento em que você pensa "FINALMENTE, TÔ ME AMANDO!" é quando os outros começam a te amar primeiro.



Porque ninguém quer ficar sozinho. E por isso a gente cede.

Mas se as pessoas soubessem lidar com diferenças, com a felicidade alheia, ninguém ficaria sozinho de forma alguma.


Temos uma necessidade enorme de estarmos em um meio social, só que para entrar nesse meio tem quase que prestar vestibular e preencher todos os requisitos. Isso é extremamente triste, é deprimente, e o pior de tudo é que podemos pensar sobre isso diversas vezes, mas no final estaremos tentando fazer uma média com os colegas de trabalho. E sempre, sempre, acaba enchendo o saco uma hora. Até porque parece que as exigências alheias nunca são suficientes.



Espero, um dia, conseguir olhar pra essas todas exigências e só responder cantando Novos  Baianos:



"Vou mostrando como sou


E vou sendo como posso,
Jogando meu corpo no mundo,
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas,
Passado, presente,
Participo sendo o mistério do planeta"